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2 de março de 2026Por João Vitor Fernandes

Transtornos de Aprendizagem

"A pessoa que não consegue aprender tem TDAH? Tudo é TDAH?!"

Ilustração de uma pessoa frustrada por não conseguir aprender.

Um dos assuntos mais comentados nos últimos anos em todas as mídias sociais diz respeito ao uso de Ritalina para questões comportamentais voltadas ao aprendizado. Muitas vezes, o uso abusivo e inadequado da medicação tem sido pauta tanto para os profissionais da área da saúde, quanto para a população de forma geral. O tópico de Saúde Mental que se relaciona com esse assunto é o diagnóstico de Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade, o famigerado e conhecido TDAH. Entretanto, vocês sabiam que o TDAH não é sequer um Transtorno de Aprendizagem? Sabem por quais motivos isso gera confusão? Essa é a nossa reflexão de hoje, vamos lá

1.) Diferenciação entre diagnósticos

O Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não é considerado pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 5ª edição) um Transtorno de Aprendizagem. Ou seja, embora se faça imprescindível termos atenção preservada o suficiente para que possamos focar e consequentemente aprender, esse diagnóstico diz respeito à outra área comportamental. E por quê isso? Porque a desatenção e a hiperatividade não estão linkadas diretamente com o repertório de estudos! A pessoa com hiperatividade e o indivíduo com déficit de atenção são assim em todos os ambientes e âmbitos de suas vidas e não apenas no que está voltado para a área de habilidades acadêmicas. Essa diferenciação é importante para que se pense nesses diagnósticos, que estão sendo tão falados hoje em dia, de uma forma acurada e científica.

2.) "João, mas se o TDAH não é Transtorno de Aprendizagem.. ele é o quê?"

O TDAH; assim como o Autismo, a Síndrome de Tourette, a Deficiência Intelectual; é enquadrado pela Medicina na área diagnóstica pertinente aos Transtornos do Neurodesenvolvimento. Agora conseguem visualizar a diferença? Podemos dizer que a pessoa com TDAH não é seletiva em seu comprometimento, ao passo que no Transtorno de Aprendizagem tem-se uma dificuldade bastante específica. "Como assim, João? Tá ficando difícil." Calma, calma.. traduzindo: quem tem TDAH é desatento com várias coisas e/ou hiperativo com tudo na vida. Enquanto para aquela pessoa com transtorno de aprendizagem, como o próprio nome diz, tem dificuldade em habilidades da parte acadêmica, em específico.

3.) "Okay então.. e quais são esses tais, Transtornos de Aprendizagem?"

Vamos lá. Primeiro a definição formal:

"Caracteriza-se por dificuldades significativas e persistentes em aprender habilidades acadêmicas, que podem incluir leitura, escrita ou aritmética, desempenho do indivíduo na habilidade acadêmica afetada é marcadamente abaixo do que seria esperado para a idade cronológica e nível geral de funcionamento intelectual e resulta em prejuízo significativo no trabalho acadêmico ou do indivíduo." (CID 11ª.)

E em seguida, exemplos dos Transtornos de Aprendizagem. Veja se já ouviram falar de algum:

  • 1.) Dislexia
  • 2.) Disortografia
  • 3.) Dislexia-Disortografia
  • 4.) Discalculia
  • 5.) Síndrome de Gerstmann

"Nossa, João.. não sabia que era tão complexo e variado assim!". Pois é, pessoal.. está vendo a importância de se buscar a explicação adequada e científica sobre comportamento humano? Nem tudo é dislexia, da mesma forma que nem tudo é TDAH, nem tudo é autismo, nem tudo é depressão, nem tudo é ansiedade.. Mas, vamos lá, nos próximos tópicos explicarei um pouquinho de cada uma dessas dificuldades

4.) Dislexia

Trata-se de uma dificuldade de aquisição de leitura na idade habitual. Mas, vale a pena fazer algumas ressalvas. Para que se considere esse diagnóstico, tais comportamentos devem permanecer após os 7 anos de idade (visto que antes desse estágio de desenvolvimento essas dificuldades são consideradas comuns). Também é importante que tal prejuízo no repertório comportamental da pessoa não seja explicado por deficiência intelectual ou deficiência sensorial. A dislexia tem uma incidência na população que varia de 5 à 15%.

"E com exemplos práticos, João? Ainda não entendi qual a dificuldade da pessoa com dislexia". Bom, vamos lá, ilustrando em tópicos esses comprometimentos:

  • Confusão de grafemas (cuja correspondência fonética é grande), por exemplo, dificuldade de diferenciar (x de ch. Ex: chave. Seria chave ou xave?). Essa confusão também pode ocorrer por similaridade de forma de escrita, ex: troca de p com q. Ou ainda b com d. Inversões na leitura também são comuns, então ao invés de ler "or" a pessoa troca e lê "ro". Omissões na leitura também aparecem, ou seja, ao se deparar com "árvore" a pessoa pode ler como "arve". Também são observadas dificuldades no ritmo da leitura.

5.) "Okay, João.. agora ficou mais claro. Mas, e a tal da Disortografia?"

A Disortografia já diz respeito às mesmas dificuldades que citamos, porém voltadas para a escrita e não à leitura (como é o caso da dislexia).

6.) "E se a pessoa tiver essas dificuldades tanto na escrita, quanto na leitura?"

Daí então dizemos que ela se enquadra no que chamamos de Dislexia-Disortografia, que associa as dificuldades de escrita e leitura, simultaneamente.

7.) "Perfeito, João.. agora entendi a Dislexia, a Disortografia e também sua forma completa Dislexia-Disortografia. E a discalculia, é o quê?"

Com a Discalculia temos que ter um cuidado especial. Essa palavra corresponde ao indivíduo que possui uma dificuldade extrema com números/cálculo matemático. Muitos alunos que detestam matemática, facilmente diriam que possuem então discalculia. Mas, não é assim que funciona. O quadro de discalculia é mais raro que o de Dislexia e afeta pessoas que possuem dificuldades nas operações elementares mais básicas de cálculo. (Por exemplo: Somar, Subtrair)

Logo, quando dizemos que há uma hipótese diagnóstica de Discalculia, devemos avaliar com cuidado. A pessoa que não teve oportunidade de estudar quando pequena (analfabeta) ou o aluno que não consegue tirar notas boas em disciplinas das Exatas, não necessariamente possuem discalculia. Esse transtorno é um transtorno de Aprendizagem e não uma mera dificuldade.

8.) "E esse nome estranho, João? Síndrome de Gerstmann?"

Esse é menos falado, mas basicamente é a Discalculia associada a outros comprometimentos comportamentais, incluindo ao quadro:

  • Indistinção Direita-Esquerda
  • Apraxia Construtiva
  • Disgnosia Digital

Explicando de uma forma que vocês possam compreender direitinho: Imagina uma pessoa que para realizar uma conta de soma, no início da aprendizagem, precisa "montar a continha". Mas, e se essa pessoa tiver uma dificuldade extrema em diferenciar a direita da esquerda? Como ela irá montar a conta corretamente? Inclusive aqui também cabe a explicação da Disgnosia Digital.. muitos alunos quando estão começando a aprender matemática realizam as operações básicas de soma e subtração utilizando seus dedos. Mas, como contar com os dedos, se a pessoa possui uma dificuldade/incapacidade neurológica de identificar/nomear/reconhecer os próprios dedos?

Já a Apraxia Construtiva refere-se a dificuldade mais global de identificar partes e organizá-las a fim de montar um todo. Habilidades também muito importantes para cálculos matemáticos e organizações viso-espaciais. Por exemplo, pessoas com esse quadro de apraxia construtiva podem ter dificuldades para desenhar um relógio, montar um cubo, fazer dobraduras simples, entre outros.

Conclusão de nossa reflexão

Viram quão importante é buscar informações científicas? Espero que eu tenha contribuído com vocês para o pensamento de que, em termos comportamentais, nem tudo é tão simples de se dizer e diagnosticar. Os Transtornos de Aprendizagem abrangem diversas dificuldades distintas entre si. O TDAH pode estar associado à essas dificuldades, mas isso não significa que são a mesma coisa. A avaliação neuropsicológica é um instrumento valiosíssimo para diagnóstico desses quadros e a psicoterapia comportamental tem se mostrado uma ferramenta excelente para o tratamento e acompanhamento de indivíduos que se enquadrem nessas vivências. É sempre preciso se lembrar que não falamos de transtornos apenas para estudar doenças ou patologias.. estamos dizendo de pessoas! Seres humanos que não se limitam a um diagnóstico ou outro, mas sim que sofrem com essas vivências e que possuem um potencial inacreditável. Apenas é preciso a estimulação certa, na direção apropriada. Eu estou aqui para quem quiser acompanhamento, só entrar em contato. Espero que tenha gostado e até a próxima :)

Referências Bibliográficas

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: 11ª revisão (CID-11). Genebra: World Health Organization, 2019.
  • ASSUMPÇÃO JUNIOR, Francisco Baptista. Transtorno de Aprendizado. 19 slides. Material didático não publicado. Disciplina de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Pós Artmed, São Paulo, 2026.

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Comentários

J

Jonathas Castilho

há cerca de 1 mês

Eu diria que tenho todos esses comprometimentos do neurodesenvolvimento kkkk Mas de fato é preciso avaliar. Pensar que tem dificuldade e se acomodar é esquiva. Se mesmo após acompanhamento psicológico a pessoa ainda não consegue performar como o esperado, vale a pena investir em uma avaliação neuropsicologica.

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