Não consigo parar de mentir
O post de hoje reflete um pouco sobre o comportamento de mentir, ao distinguir 3 possíveis formas de se ver o fenômeno comportamental da mentira e apontar a necessidade de busca de ajuda profissional psicoterapêutica

Hoje é dia Primeiro de Abril, conhecido por muitos como "dia da mentira", uma excelente oportunidade para falar sobre os comportamentos que envolvem o mentir, o como isso pode causar inúmeras questões de saúde mental e como a psicoterapia pode ajudar nisso.
O primeiro ponto a ser refletido sobre é: "Será que toda mentira é igual? Todo mentiroso/mentirosa mentem pelos mesmos motivos?". Uma frase bem bacana que ouvi de um professor e costumo dizer a todos meus pacientes é: Se alguém lhe der uma resposta simples para um problema muito complexo, se atente, pois provavelmente essa resposta está incorreta. Esse raciocínio vale bastante no fenômeno da mentira! Não dá para simplesmente dizer que todo mundo mente pelo simples fato de "querer esconder uma informação", correto?
Vamos lá, quando um paciente busca psicoterapia pelo comportamento de mentir já podemos inferir algo importante sobre esse comportamento, a sua: frequência. Ou seja, a pessoa que vem com essa queixa, provavelmente possui esse comportamento acontecendo em seu cotidiano muitas e muitas vezes e com pouquíssimo autocontrole sobre o assunto. Meu trabalho como psicoterapeuta comportamental é o de então realizar uma análise funcional para entender melhor o porquê aquilo ocorre na vida daquela pessoa e quais as consequências que estão sendo acarretadas tanto para a pessoa que mente, quanto para as pessoas ao seu redor.
Ou seja, o paciente precisa ter consciência que a mentira afeta um âmbito em particular em sua vida: suas relações interpessoais (de todos os tipos possíveis, como: no trabalho, nos estudos, com amigos, com familiares, com seu relacionamento amoroso, entre outros). Dito isso, faz-se importante distinguir 3 tipos de comportamentos que envolvem o mentir e que são distintos entre si. Por exemplo, vocês sabem a diferença de Mitomania, Mentir Compulsivo e Confabulação?
Vamos a distinção
1.) Mitomania
A mitomania ocorre quando temos um indivíduo que mente muito, ou seja com alta frequência da resposta comportamental de mentir, mas com um detalhe especial e significativo. A pessoa mitomaníaca estrutura suas mentiras com tamanha riqueza de detalhes que com o passar do tempo ela passa a acreditar na própria mentira, a ponto de sequer sentir que está mentindo. Quais os problemas psicológicos decorrentes disso, João? Aqui nós temos aquela pessoa que acaba sendo vista pelos outros como uma pessoa muitas vezes cínica ou que "se faz de sonsa/desentendida".
Em resumo, o comportamento de mentir já se tornou tão parte da vida da pessoa que ela passa a acreditar no que está dizendo e passa a viver em um mundo ilusório, visto que de tanto mentir, a maior parte das coisas que diz ela sequer viveu, mesmo que tenha se convencido a acreditar nisso.
Isso gera um isolamento social da pessoa que mente, ao mesmo tempo que ela se sente injustiçada em suas relações, pois não entende o porquê das pessoas estarem reagindo dessa maneira ou por não confiarem nela.
2.) Mentir Compulsivo
A mentira compulsiva é a forma de comportamento de mentir mais frequente como queixa no consultório psicológico. Aqui a pessoa também mente bastante e isso tem um impacto forte na sua vida e suas relações, mas essas mentiras ocorrem com consciência! Em outras palavras, diferente do mitomaníaco, o mentiroso compulsivo sabe distinguir a mentira da realidade. Sua dificuldade está no âmbito da impulsividade e do autocontrole. É como se mentir tivesse virado um vício e a pessoa está presa em um ciclo de dependência da mentira. Ela chega ao nível de mentir de forma automática, muitas vezes se sentir culpada depois, mas ainda assim não conseguir controlar seu comportamento. Essas mentiras frequentemente acontecem como uma maneira de conseguir uma atenção especial em seus ciclos sociais, como em grupos de amigos. Ou então como forma de lidar com situações do cotidiano. Pode ser uma maneira de se "posicionar" socialmente devido a baixa autoestima também. E aqui, as mentiras são vistas como "pequenas e não grandiosas", não há riqueza de detalhes como na mitomania, mas realmente uma falta de autocontrole e uma impulsividade ansiosa bem importante.
É exatamente nesse caso, devido ao automatismo do comportamento, que chega-se ao ditado "a mentira tem perna curta". Pois as mentiras são muitas, variadas, não grandiosas, impulsivas e automáticas. Ou seja, uma questão de tempo para pessoa se perder no que ela mesma diz.
3.) Confabulação
Nesse terceiro caso, precisamos prestar bastante atenção! Aqui, mesmo que a mentira esteja presente ela é completamente diferente dos outros 2 casos. Aqui a explicação do comportamento de "mentir" é dado por uma via neurológica e não psicológica. E por quê colocar mentir entre aspas, João? Veja bem, aqui o paciente possui falhas na capacidade cognitiva de memória e ao relembrar algum evento de sua vida, ele preenche as lacunas com fatos que não ocorreram. Ou seja, ele não está falando a verdade, mas também não se encaixa em uma mentira tradicional.
Um exemplo clássico que costuma ocorrer é em pacientes idosos com Alzheimer. Ao relembrar fatos de suas vidas eles podem inventar diversos detalhes que não ocorreram. E agora sabemos o termo certo para isso. Ele não está apenas inventando, nem mentindo.. dizemos que ele está confabulando!
E qual a importância disso aqui então, João? Se é tão diferente dos outros 2, porquê mencionar nesse texto? Simples: pelas consequências psicológicas das relações com essa pessoa. Imagine uma pessoa que tenha uma mãe ou pai com Alzheimer ou algum outro quadro neurológico demencial, que conviva diariamente com essa pessoa e que ouça diversas "mentiras" e fique tentando corrigir a narrativa de sua mãe/pai a todo momento. É um stress e cansaço infinitos para ambos!! Além de um tratamento injusto para com o paciente que confabula, já que ele não tem capacidade neurológica para dizer a verdade inteira e completamente como ocorreu.
Conclusão
O raciocínio é bem direto: a mentira causa um impacto em suas relações interpessoais? Se sim, é necessário psicoterapia! A psicoterapia ajuda nesse aspecto de forma super importante visto que trabalhará nos âmbitos de consciência ou inconsciência do processo de mentir, repertório de impulsividade, repertório de ansiedade, repertório de autoimagem e autoestima, ansiedade social, depressão, traços de personalidade, mentira com fundo manipulativo, memória, autocontrole, dentre muitos outros aspectos.
Viram como o assunto não é tão básico assim? Espero que esse texto tenha, mesmo que superficialmente, mostrado a vocês que não deve-se reduzir a pessoa que mente a alguém "safada" ou necessariamente manipuladora. Aonde existe sofrimento, existe necessidade de ajuda!
Se você se identifica com algum dos relatos aqui, eu posso lhe ajudar. Basta entrar em contato para ser atendida/o por mim e agendamos sua sessão. Até o próximo post :)
Quer aprofundar esse assunto?
Vamos conversar. O primeiro passo pode ser mais simples do que você imagina.
Outros artigos que podem te interessar
Estou em um relacionamento abusivo?
Como fazer para identificar traços comportamentais de um relacionamento abusivo e como agir
Ler artigo15 de março de 2026Psicoterapia e Ansiedade
Quais os mitos por trás da Ansiedade? O que significa dizer que a ansiedade tem 2 partes? Terapia e Ansiedade, ajuda?
Ler artigo2 de março de 2026Transtornos de Aprendizagem
"A pessoa que não consegue aprender tem TDAH? Tudo é TDAH?!"
Ler artigoReceba novidades do blog
Quando João publicar um novo artigo, você recebe no e-mail. Sem spam e cancele quando quiser.
Comentários
Ainda não há comentários aprovados. Seja o primeiro a comentar.