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23 de março de 2026Por João Vitor Fernandes

Estou em um relacionamento abusivo?

Como fazer para identificar traços comportamentais de um relacionamento abusivo e como agir

Dois homens em seu quarto. Um está discutindo com o outro, enquanto um deles está com fone de ouvido não prestando atenção.

O fenômeno abusivo nas relações amorosas

Como identificar se estou em um relacionamento abusivo? Essa é uma das reflexões que mais trazem pacientes ao consultório de Psicologia. A dinâmica dos relacionamentos amorosos da atualidade tem sido marcada por comportamentos dos mais diversos, muitos desses que sequer são fáceis de se notar e quem dirá manejar. Ainda assim é importante que este assunto seja devidamente discutido por todos profissionais da área da saúde, em especial da saúde mental, justamente pelas consequências nefastas que esse fenômeno pode acarretar na vida das pessoas.

A primeira distinção que precisamos realizar é a de que: você não precisa sofrer violência física para estar em um relacionamento abusivo. O relacionamento pode estar comprometido devido à comportamentos mais fáceis de serem classificados como abusivos, como por exemplo: agressão física, abuso sexual, agressões verbais. Entretanto, formas comportamentais mais sútis não deixam de ser tóxicas e altamente desestabilizadoras para saúde, como são os casos da manipulação psicológica ("gaslighting"), chantagens, dinâmicas de abuso de poder dentro da relação por fatores socioeconômicos (por exemplo, diferença e controle salarial, condições financeiras familiares).

Infográfico do ciclo do relacionamento abusivo. Fonte: https://www.sescsp.org.br/editorial/ciclo-do-relacionamento-abusivo/. Acesso: 23 de Março de 2026.
Infográfico do ciclo do relacionamento abusivo. Fonte: https://www.sescsp.org.br/editorial/ciclo-do-relacionamento-abusivo/. Acesso: 23 de Março de 2026.

O fator mais importante de se identificar é o funcionamento da relação. Normalmente, temos um agressor e uma vítima e, psicologicamente, cada um desses 2 agentes carregam uma parcela de responsabilidade sobre o que anda acontecendo. "João, quer dizer que você está culpando a vítima?", a resposta para isso é: JAMAIS! Apenas estou dizendo que para um comportamento ocorrer e se manter acontecendo é necessário que exista REFORÇO. Muitas vezes o que ocorre é que a vítima pode não saber lidar com sua possível dependência afetiva e isso pode acabar mantendo a pessoa em um ciclo de pensamentos intrusivos muito autodestrutivos: "Eu não consigo achar ninguém melhor", "Eu não sou nada mesmo, nenhuma outra pessoa irá me escolher", "Minha única chance de felicidade é com essa pessoa, mesmo que ela me machuque, isso é uma fase e vai passar", "Ele/ela não era assim no início, isso vai passar e a pessoa vai voltar a ser quem ele/ela realmente era"; entre diversos outros pensamentos que dificultam em muito na tomada de decisão e iniciativa comportamental da vítima.

Alguns sinais importantes de entender que se está numa relação abusiva/tóxica é o de já ter uma previsibilidade comportamental muito bem estabelecida. Por exemplo: Meu namorado é "brigão", saímos para um bar, alguém fala algo e eu já pressinto a reação desproporcional do meu parceiro. Saber descrever para si mesmo, de forma detalhada, quais os gatilhos do comportamento do outro é importante. Mas, nesse caso também nos dá um sinal de alerta: você só sabe descrever tão bem e facilmente assim, pois provavelmente isso já ocorreu diversas vezes. Diversas conversas já aconteceram, diversas brigas repetiram-se, diversos pedidos de desculpas e zero mudança de comportamento, este é o ciclo abusivo.

O agressor se comporta de forma abusiva/tóxica/manipuladora/adoecedora, o conflito acontece (de forma direta ou indireta), entra-se em um estágio de lua de mel e um tempo após, o ciclo se repete.

O que seria essa fase de lua de mel?

Vocês já ouviram falar da mãe que bate e depois faz carinho no "dodói"? Ou então a pessoa que te xinga/te humilha/te coloca lá embaixo e depois diz: "Mas, eu to falando isso é porquê eu te amo!" Pessoas que passam muito tempo em relações com esse tipo de funcionamento passam a acreditar nessas palavras e, muitas vezes, a reproduzir tais comportamentos. A fase de lua de mel é conhecida como a etapa "das pazes" no relacionamento abusivo, na qual o agressor/a promete nunca mais fazer aquilo de novo. Passam-se horas/dias/as vezes até semanas numa vida maravilhosa e de repente, toda a agressão se repete.

A partir desse funcionamento, a vítima passa a ficar viciada nesses momentos de lua de mel e começa a viver de forma mais e mais dependente afetivamente dessas "migalhas emocionais". Não é a toa que o termo do fenômeno é "dependência afetiva", funciona como qualquer outra dependência. O seu cérebro em níveis neuroquímicos te comunica: "eu preciso dessa pessoa para viver, sem ela eu morro, faça o que for necessário para mantê-la!".

Entendem a necessidade de um tratamento psicoterápico de qualidade? É essencial que o psicólogo trabalhe com essa vítima sobre a "necessidade" de viver sob essas condições, sobre sua autoimagem. Da mesma forma, o trabalho com o agressor também tem que ser realizado, a fim de entender o por quê aquela pessoa sente a necessidade de que as coisas sejam apenas do "seu jeito" para que tudo esteja "em ordem". Em outras palavras o fundamental no relacionamento abusivo é entender a "necessidade de algo". Por quê eu sinto que preciso ter o controle de tudo a todo tempo? (para o agressor) e Por quê eu sinto que preciso dessa pessoa para ser feliz? (para a vítima).

Consequências

As consequências de um relacionamento abusivo são muito dolorosas e as vezes podem passar despercebidas. Elas podem aparecer na forma de comorbidades psiquiátricas, por exemplo. A pessoa pode desenvolver um Transtorno de Ansiedade, muitas vezes com episódio de Pânico, assim como um Transtorno Depressivo. Fatores psicopatológicos importantes e que se não tratados podem evoluir para consequências fatalistas como homícidio por parte do agressor (nas relações com agressões físicas e mais possessivas) ou ainda tentativas contra a própria vida (por parte da vítima, na maior parte das vezes).

O isolamento social da vítima de seus círculos de amizades e familiares também é muito comum. Justamente pelo controle exacerbado exercido pelo agressor/a e que podem resultar em afastamento do trabalho e uma dependência financeira do abusador, cada vez maior. Dificultando ainda mais o término do ciclo.

Conclusão

É super importante concluirmos que para um relacionamento ser saudável não é necessário e nem possível que uma pessoa concorde com a outra em 100% das coisas, 100% do tempo. Entretanto, os limites de cada um precisam ser comunicados, bem conhecidos por ambos e estritamente respeitados! O diálogo efetivo e emocional é o que deve imperar. Da mesma maneira, não é qualquer briga ou desentendimento que faz com que um relacionamento seja abusivo ou tóxico. Tudo vai depender da análise desses comportamentos, da frequência deles na rotina das pessoas, da gravidade, do quanto machuca, do quanto isola.

Também vale ressaltar que relacionamentos abusivos não são apenas amorosos! Valem para qualquer relação interpessoal (seja amizade, família, namoro). E também independe de genêro ou orientação sexual. O abuso pode aparecer em relações com ficantes (na forma de falta de responsabilidade afetiva), em namoros, em casamentos, sejam héteros ou LGBTQIA+. O relacionamento abusivo é um tópico de saúde pública e deve ser devidamente tratado por 2 principais motivos: 1.) Para ver se é possível que o relacionamento não tenha que terminar (caso ambos estejam dispostos a quebrar esse ciclo e aprender novos jeitos de se comportar) ou 2.) Para que a vítima saiba se posicionar e terminar o relacionamento com outro, da forma mais segura possível, priorizando o relacionamento saudável consigo mesmo.

Se você se identifica com esse texto, eu me disponibilizo! Procure ajuda profissional e não tente sair disso sozinho/a, pois provavelmente você não irá conseguir. O tempo que temos nesse mundo é curto demais, a vida voa e a tua saúde emocional e física não pode estar nas mãos de ninguém, quem quer que seja. Envie uma mensagem, marque seu horário e inicie seu tratamento comigo, darei meu melhor para lhe ajudar.

Referências Bibliográficas

B. F. Skinner. Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO DE SÃO PAULO (SESC-SP). O ciclo da violência dentro de um relacionamento abusivo. São Paulo: Sesc São Paulo, [s.d.].

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