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17 de fevereiro de 2026Por João Vitor Fernandes

Quais as funções da Psicoterapia?

Reflexão sobre as funções da Psicoterapia e quais os motivos dessa resposta ser complexa

Ilustração do processo terapeutico

Primeiramente, é de fundamental importância responder a essa questão de uma maneira objetiva. Embora tal tarefa nem sempre seja fácil. E qual o motivo dessa dificuldade tão grande em responder ao que o Psicólogo faz? Bem.. a famosa resposta dada pela Psicologia entra exatamente aqui: "Depende". Abaixo iremos conversar em tópicos, a fim de que ao final dessa leitura, essa reflexão fique um pouco mais descomplicada.

"Do que depende?"

Podemos dizer que a primeira sessão entre o paciente e o psicoterapeuta é um momento, de fato, especial. Pois é nesse encontro que as "cartas são colocadas na mesa". Ou seja, já a partir do primeiro minuto em que encontro meu novo paciente, começa-se o trabalho de Anamnese. Anamnese é o nome técnico dado para esse modelo de raciocínio clínico, na qual o profissional da saúde irá entender quais são as questões a serem trabalhadas. Sabe quando se está passando mal e antes de ir a consulta médica é necessária a realização de uma triagem básica? Você chega no hospital e algumas medidas são importantes.. como: "medição de temperatura corporal", "se teve vômito", "aferição de pressão", entre outras investigações que tem como objetivo final te classificar com uma pulseirinha verde, amarela ou vermelha (com base na gravidade e urgência dos teus sintomas). Sempre que faço essa analogia com o modelo médico, as pessoas costumam entender rapidamente. Por quê? "Ué, João.. porque eu já fui no médico diversas vezes e sei como é que funciona".

Pois bem, na Psicoterapia, inicialmente o meu trabalho é bem parecido. A única diferença é que a avaliação dos sintomas que o paciente apresenta e das questões que ele me traz, é realizada de uma forma diferente. Mas, a metodologia é a mesma. Concorda que um paciente; que me vem com o diagnóstico de Transtorno de Pânico, que já chegou a perder o emprego, pois não consegue mais sair de casa e tem crises a todo momento; está numa situação completamente diferente de uma outra paciente que veio buscar a Psicoterapia para se conhecer melhor? Não é uma questão de qual motivo é mais importante, mas sim, uma avaliação do quadro específico de necessidades de cada pessoa. Dessa forma, eu como profissional posso pensar em uma estratégia de intervenção e aplicá-la da maneira mais adequada possível para aquela pessoa.

Ou seja, o Psicólogo possui diversas funções e nem sempre ele terá que utilizar de todas as suas ferramentas.. o que ditará o que será feito é o resultado dessa avaliação psicológica inicial, que sempre depende da demanda do paciente em questão.

"Mas, não era uma resposta objetiva? Agora você tá falando que depende, João?"

Muita calma nessa hora, queridinhos e queridinhas! Não é porque o que o Psicólogo faz depende de cada caso, que isso seja igual a dizer que suas estratégias são pseudocientíficas ou imprecisas. Voltemos a consulta médica.. você está com tosse. Isso significa que o médico responsável pelo seu caso, necessariamente, irá te passar antibiótico? Lógico que não, né?! Mas, caso ele julgue necessário, ele possui essa ferramenta para utilizar, não é mesmo? Na Psicoterapia é a mesma coisa! No meu trabalho, eu costumo dizer que existem algumas demandas que independem de pessoa para pessoa. Ou seja, existem algumas vivências do dia-a-dia que são inerentes a experiência humana e que valem para todos! E existem outras condições que são muito específicas e que foram criadas e estabelecidas dentro da história de vida de cada um e que, portanto, requerem uma análise individualizada.

Com os exemplos que darei agora, essa reflexão vai fazer mais sentido. Veja bem, o período de decisão sobre o que se fará da vida, depois do término do Ensino Médio na escola. Aquela famosa questão: "O que vou ser quando crescer?". Tenho completa certeza que, enquanto vocês leem essas palavras, já identificaram que se trata de uma experiência universal. Isso significa que no meu atendimento com adolescentes, inevitavelmente esse será um tópico. Será importante que uma das funções do meu trabalho seja fazer com que esse adolescente consiga passar por esse período tão turbulento de inseguranças, da forma mais saudável e menos danosa possível. E que também ele encontre uma forma de se responder, sobre qual caminho terá que traçar em sua vida.

Agora, e se eu disser, que um paciente necessariamente TEM que aprender a lidar com o luto de um parente próximo por complicações de um câncer, por exemplo? Ou então, que uma paciente minha TENHA que aprender a lidar com as dificuldades de cada trimestre do período completo de gestação? Ou ainda, que meu paciente aprenda a superar seu relacionamento abusivo e lidar com as consequências do divórcio?

Concorda que todas essas indagações acima, dependem?! Eu vou trabalhar com meu paciente o luto por câncer, se ele teve algum envolvimento com essa situação. Da mesma forma, não faz sentido planejar uma intervenção psicoterapêutica de acompanhamento gestacional mais próximo com uma paciente que não esteja grávida ou então ensinar uma pessoa a processar um divórcio, sendo que ela nem é casada. Pode ser que esses exemplos sejam muito óbvios, mas é exatamente esse raciocínio reflexivo que quero que vocês tenham aqui. Não é porquê a resposta do que o Psicólogo faz seja "depende", que ele não faça nada.. muito pelo contrário!

O melhor jeito de descobrir é experimentar!

Com base em toda essa reflexão que conduzimos aqui, vocês podem tirar 2 conclusões sobre meu trabalho como Psicólogo Comportamental. A primeira é a de que o foco é em uma abordagem realmente individualizada. Agende a sua sessão e após a realização da Anamnese eu trabalharei tanto com as demandas que você me trouxer, como paciente, quanto com as que eu identificar como importantes (considerando o teu repertório como um todo). E a segunda conclusão é a de que não dá para fazer as coisas sem colocar ordem na casa! Ou seja, eu irei avaliar tanto as situações e demandas, mas também identificar quais destas demandas serão trabalhadas com intervenções a curto prazo (mais urgentes), médio prazo (que demandem de um pouco mais de tempo) e longo prazo (aquelas que já foram reforçadas a tantos anos na vida do paciente, que são mais complicadas de descontruir ou elaborar).

De qualquer forma, a Psicologia quando vista como ciência, envolve técnica assim como qualquer outra profissão da área da Saúde. Não sabe o que dizer na primeira sessão? Está com vergonha de falar de cara sobre certas coisas? Não tem problema algum!! A Psicoterapia não é espaço para julgamento de valores ou comportamentos, mas sim, um espaço de resolução de questões e ampliação de repertório. Qualquer dúvida, estou a disposição e espero que tenham gostado dessa reflexão :)

Referências

  • ALBORNOZ, A. C. G. Devolução das informações do psicodiagnóstico. A entrevista de anamnese. O processo psicodiagnóstico. In: HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C.; KRUG, J. S. (org.). Psicodiagnóstico. Porto Alegre: Artmed, 2016.
  • HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C.; KRUG, J. S. Psicodiagnóstico. Porto Alegre: Artmed, 2016.
  • YEHIA, Aline Camille; VIANA, Priscila Rosse Lopes; MACEDO, Marcus Vinicius Miranda; DIAS, Náthia Cerne de Souza; CAMPOS, Cecília Cruz; JARDIM, Sérgio Nachiluk; GARCIA, Júlia Neri Andrade de Almeida. Anamnese na prática clínica: uma revisão sobre suas aplicações e importância. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v. 22, n. 2, p. 116-120, 2024.

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Comentários

J

Jonathas Castilho

há cerca de 1 mês

João arrasou na explicação. Saúde mental não é obtida por uma conversa sem preparo ou ténica. Ela precisa ser um trabalho rigoroso e não improviso. Lembro de quando fiz terapia pela primeira vez e desisti porque eu ficava 40 minutos falando e o psicólogo fazendo um poker face. Ele se dizia agnóstico quanto à abordagem e aproveitava um pouco de cada uma delas. Isso me motivou a parar com as consultas e nunca mais procurar um psicólogo que mistura as técnicas.

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