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João Fernandes
Por João Vitor Fernandes

Por que é hora de buscar terapia? A saúde do homem em foco!

Novembro Azul é um momento importante para refletir sobre sua saúde mental. Vamos entender por que buscar terapia é fundamental.

Homem uma sessão de terapia

Você termina o dia de trabalho, para diante da pia e começa a lavar a louça em silêncio. O olhar vai para a janela, a cabeça repassa as cobranças de amanhã e, entre um prato e outro, surge a fala: “Será que eu deveria procurar um terapeuta?”. Poucos segundos depois, vem a segunda: “Ah, isso passa... tem gente passando por coisa pior.” E o assunto desaparece até a próxima noite.

Esse roteiro se repete na vida de muitos homens, e eu não o explico por “fraqueza” nem por “falta de coragem”. Na análise do comportamento, a pergunta é outra: qual é a função de adiar? Novembro Azul é um bom momento para respondê-la.

Por que tantos homens adiam a terapia?

Desde a infância, muitos meninos aprendem que chorar, duvidar ou pedir colo produz consequências desagradáveis, como a piada, a correção (“homem não chora”) ou o afastamento dos colegas. Já “aguentar calado” costuma ser seguido de elogio: “forte”, “responsável”, “homem de verdade”. Esse é um histórico de reforço e punição que, repetido por anos, molda o repertório do adulto. Três pontos se destacam:

  • Punição social da vulnerabilidade: falar de sofrimento já foi seguido de ridicularização ou desvalorização, e a probabilidade de falar diminuiu.
  • Reforço negativo da esquiva: mudar de assunto, trabalhar mais ou “ficar quieto” faz o desconforto cair na hora. Esse alívio imediato mantém a esquiva, e o custo (o problema que continua crescendo) só aparece depois.
  • Repertório limitado para descrever o que sente: segundo Skinner (2003), é a comunidade verbal que ensina a pessoa a nomear o que ocorre dentro da própria pele. Se essa comunidade nunca ensinou, falar a respeito se torna difícil.

A literatura sobre saúde do homem descreve esse padrão: homens procuram serviços de saúde com menos frequência e mais tarde (COURTENAY, 2000; ADDIS; MAHALIK, 2003). Isso é um dado sobre o grupo, e não um defeito seu. Quem aprendeu assim estava fazendo o que o ambiente reforçava.

O que a terapia faz, na prática

Muita gente acredita que terapia é só para quem está “no fundo do poço”, mas ela pode ser útil em muitos momentos. O trabalho começa pela anamnese e pela análise funcional: eu levanto com você em que situações o problema aparece (antecedentes), o que você faz (resposta) e o que acontece depois (consequências). A intervenção parte dessa leitura, e não de um palpite sobre “o seu jeito de ser”. Na prática, o processo pode envolver:

  • Ampliar o repertório de descrição: aprender a identificar e nomear o que você sente e em que contexto aparece.
  • Construir habilidades de enfrentamento: ensaiar alternativas à esquiva, como pedir ajuda, conversar com alguém ou reorganizar a rotina.
  • Alterar o ambiente: mudar horários, tarefas e relações para que comportamentos de cuidado passem a ser reforçados.
  • Olhar para o corpo: sono, alimentação, bebida e atividade física fazem parte do padrão de comportamento e se relacionam com o estresse. Saúde mental e saúde física se influenciam.

Não faço promessa de resultado, porque cada história é diferente. Também não diagnostico ninguém por texto: diagnóstico (DSM-5, CID-11) só é feito por profissional, após avaliação (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014; OMS, 2019).

Novembro Azul: uma chance de mudar a contingência

O Novembro Azul nasceu como campanha de conscientização sobre o câncer de próstata e, no Brasil, dialoga com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (BRASIL, 2009). Se o mês serve para que mais homens façam exames, ele também pode servir para que mais homens falem de saúde mental. Cada vez que alguém fala e é acolhido, a chance de voltar a falar aumenta, e é assim que um ambiente passa a reforçar o cuidado.

Se você se reconheceu aqui, o primeiro passo pode ser pequeno:

  • Quebrando o custo de resposta: em vez de “procurar um terapeuta”, defina só a tarefa de mandar uma mensagem pedindo uma primeira conversa. Pode ser online.
  • Escolhendo uma pessoa: conte para alguém de confiança que você está pensando nisso. Isso torna o passo mais difícil de adiar.
  • Marcando data: coloque no calendário o dia e a hora da mensagem, e não “um dia desses”.

Se o sofrimento estiver muito intenso ou aparecerem pensamentos de morte, não espere: procure atendimento imediato ou ligue para o CVV, no 188, 24 horas por dia.

Conclusão

Você não precisa de mais cobrança, você precisa de estratégias que funcionem no mundo real. Se algo neste texto descreveu a sua rotina, entre em contato comigo. Podemos começar com uma conversa para entender o seu caso e decidir juntos o que faz sentido.

Referências

ADDIS, M. E.; MAHALIK, J. R. Men, masculinity, and the contexts of help seeking. American Psychologist, v. 58, n. 1, p. 5-14, 2003.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Brasília: Ministério da Saúde, 2009.

COURTENAY, W. H. Constructions of masculinity and their influence on men’s well-being: a theory of gender and health. Social Science & Medicine, v. 50, n. 10, p. 1385-1401, 2000.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças. 11. rev. Genebra: OMS, 2019.

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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