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João Fernandes
Por João Vitor Fernandes

Novembro Azul e saúde mental masculina: por que “aguentar calado” não é força

A saúde mental masculina é frequentemente negligenciada. Neste Novembro Azul, vamos discutir sua importância e como promover o autocuidado.

Dois homens em seu quarto. Um está discutindo com o outro, enquanto um deles está com fone de ouvido não prestando atenção.

Você sai do trabalho, entra no carro e fica alguns minutos parado no estacionamento antes de dar a partida. Faz semanas que o sono não descansa, que qualquer coisa no trânsito vira irritação e que o peito aperta no domingo à noite. Em vez de comentar isso com alguém, você liga o rádio e pensa: “Isso passa. Não é hora de frescura.” Em casa, alguém pergunta como foi o dia e você responde “tá tudo bem” — e o assunto morre ali.

O Novembro Azul costuma lembrar a gente do exame de próstata… e ainda bem que lembra! Só que a saúde do homem não termina no consultório do urologista. Existe uma parte dela que quase nunca entra na conversa: o sofrimento emocional que fica guardado, adiado, empurrado para “depois”. E a explicação mais comum para isso — “homem é assim mesmo” — é justamente a que menos ajuda a mudar alguma coisa.

“Homem é assim mesmo”? Não: homem aprendeu assim

Quando alguém diz que homem “não se abre” porque é forte, ou porque isso é “da natureza masculina”, está tratando um padrão de comportamento como se fosse um traço de caráter. Na Análise do Comportamento, a pergunta é outra: o que aconteceu, na história dessa pessoa, toda vez que ela mostrou que estava sofrendo? Para muitos homens, a resposta é parecida. Chorar na infância rendeu um “engole o choro”; falar de medo na adolescência rendeu zoação; admitir cansaço no trabalho rendeu o rótulo de “fraco”. Ao mesmo tempo, aguentar calado rendeu elogio, respeito do grupo e a fama de “cara que segura as pontas”. Ou seja — o repertório de esconder o sofrimento (o conjunto de comportamentos que a pessoa aprendeu a emitir) foi reforçado, e o repertório de expressá-lo foi punido, várias e várias vezes.

Isso aparece nas pesquisas. Uma revisão de literatura sobre masculinidades e sofrimento mental aponta que homens, em geral, procuram menos ajuda para questões de saúde mental do que mulheres, e que normas como reprimir emoções e manter a “firmeza” diante das dificuldades estavam muito presentes entre os participantes dos estudos analisados (SILVA; MELO, 2021). Repare que isso não descreve homens “fracos” nem homens “duros”. Descreve homens que aprenderam, em ambientes concretos, quais comportamentos davam certo e quais davam errado. E o que foi aprendido pode ser modificado.

Por que “aguentar calado” continua acontecendo, mesmo fazendo mal

Se esconder o sofrimento traz tanto prejuízo, por que o padrão se mantém? Porque o prejuízo chega depois — e o alívio chega na hora. Vamos olhar a cena do estacionamento pela análise funcional, que é a descrição das relações entre o que acontece antes de um comportamento, o comportamento em si e o que acontece depois dele:

  • Antecedente: sinais de sofrimento (sono ruim, irritação, aperto no peito) em um contexto em que falar sobre isso já foi punido antes.
  • Resposta: calar, minimizar (“não é nada”), mudar de assunto, trabalhar mais, beber um pouco mais no fim de semana.
  • Consequência imediata: você evita a exposição, o constrangimento e o risco de ser julgado. Isso é reforço negativo — o comportamento se fortalece porque remove ou adia algo aversivo, isto é, algo desagradável (SKINNER, 2003).
  • Consequência atrasada: o sofrimento se acumula, o sono piora, as relações se desgastam e a busca por ajuda, quando acontece, acontece em um momento muito mais difícil.

O reforço imediato quase sempre ganha do reforço atrasado — e isso vale para qualquer pessoa, não só para homens. Há ainda um detalhe importante: em muitos homens, o sofrimento não aparece como tristeza falada, e sim como uso de álcool, comportamento de risco, irritabilidade ou isolamento. Isso dificulta que ele seja reconhecido até pelos próprios profissionais de saúde (SILVA; MELO, 2021). Quando o sinal não é reconhecido, ninguém oferece ajuda… e o ciclo se fecha.

Também vale olhar para o custo de resposta, que é o esforço necessário para emitir um comportamento. Homens costumam procurar mais os serviços em que a demanda é atendida de forma rápida e objetiva — pronto-socorro, farmácia — e menos os serviços de acompanhamento e prevenção (SILVA; MELO, 2021; BRASIL, 2009). Marcar uma consulta, explicar o que está acontecendo para alguém que você não conhece, esperar mudanças a médio prazo: tudo isso é um conjunto de respostas com custo alto e reforço atrasado. Não é falta de caráter, é uma contingência desfavorável. E deixo isso bem claro: explicar como o padrão se mantém não é culpar você por ele, porque o ambiente em que esse repertório foi construído não foi escolhido por ninguém.

Como mudar o padrão: alterar o ambiente, não “ter mais força de vontade”

Se o problema fosse falta de força, bastaria se esforçar mais — e você provavelmente já tentou. O que funciona é mudar as contingências: tornar o comportamento de pedir ajuda mais fácil de emitir e mais provável de ser reforçado. Alguns caminhos práticos:

  1. Quebrando o custo de resposta: o primeiro passo não precisa ser uma conversa longa. Pode ser uma mensagem de duas linhas para um amigo de confiança ou um agendamento pelo WhatsApp. Quanto menor a resposta inicial, maior a chance de ela acontecer.
  2. Trocando o “tá tudo bem” por fatos: em vez de procurar palavras para “como você se sente”, descreva o que está acontecendo: “estou dormindo quatro horas por noite”, “estou estourando com as crianças por pouca coisa”. Descrever eventos concretos costuma ser mais fácil — e dá a quem ouve algo específico a que responder.
  3. Escolhendo ambientes onde falar é reforçado: nem todo lugar é seguro para isso, e tudo bem. Ambientes acolhedores e sem julgamento favorecem a expressão de emoções entre homens, e atividades em grupo, como as físicas, aparecem na literatura como estratégias de promoção de saúde mental justamente por favorecerem conexão social (SILVA; MELO, 2021). Procure pessoas com histórico de escutar sem zombar.
  4. Registrando os sinais: anote, por duas semanas, o sono, o consumo de álcool, os episódios de irritação e as vezes em que você evitou alguém. Isso não é um diagnóstico — é um dado concreto para levar a uma avaliação profissional.

E onde entra a psicoterapia nisso tudo?

Na psicoterapia comportamental, o ponto de partida é a anamnese (a entrevista inicial sobre a sua história e a sua rotina) e a análise funcional. Juntos, investigamos em quais situações o sofrimento aparece, o que você faz diante dele e quais consequências mantêm esse padrão no seu dia a dia. A partir disso, construímos intervenções a curto, médio e longo prazo — desde ajustes na rotina até o treino de novas formas de se comunicar com quem está à sua volta. Cada caso é um caso, e não existe garantia de resultado nem fórmula pronta: existe trabalho feito com base no que acontece na sua vida, e não em rótulos. Buscar ajuda, aliás, é um comportamento como qualquer outro — pode ser aprendido, treinado e reforçado.

Se o sofrimento estiver tão intenso que parece impossível lidar com ele sozinho, não espere a consulta. O CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Em situações de emergência, ligue para o SAMU, no 192.

Você não precisa aguentar mais, você precisa de um ambiente em que falar dê resultado. Se você se reconheceu na cena do estacionamento, o primeiro passo pode ser uma mensagem. Eu posso te ajudar a fazer essa análise: é só me chamar pelo WhatsApp aqui do site.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: princípios e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde, 2009.

SILVA, Rafael Pereira; MELO, Eduardo Alves. Masculinidades e sofrimento mental: do cuidado singular ao enfrentamento do machismo? Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, n. 10, p. 4613-4622, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/THNcKsn4kgqwb6rFbS48ntM/. Acesso em: 2 nov. 2026.

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolpho Azzi. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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